Feriado também é dia útil
É unânime. Todo mundo torce por um feriado. Seja para faltar aula, não ver o colega chato do trabalho, dormir até mais tarde, fazer a viagem dos sonhos ou terminar aquele livro encostado na estante, mal começa o ano e estamos sempre a contar quantos - e quais – serão os dias em que nos daremos o direito de “fazer nada”.
O ser humano é mesmo muito engraçado. Faz mil planos para cada feriado (se for feriadão, nem se fala) e tem a audácia de chamá-lo “dia de fazer nada”, como se feriado fosse algo inútil. Contraditório, não?
Honestamente, são nesses dias de fazer nada que percebo a utilidade de sair da cena rotineira dos meus dias úteis e foi por isso que decidi ter um Dia das Crianças digno de fazer nada comigo mesma.
Não me dei o direito de acordar tarde. Tomei banho, comi uns biscoitos e praticamente corri para o hospital. Sim, hospital. Quis este ano que o meu fazer nada de Dia das Crianças fosse compartilhado com quem estivesse lutando, ainda que com dor, pelo “fazer tudo” que a vida proporciona.
Dois dias antes, comprei alguns brinquedos para distribuir e separei outros que a vida adulta não mais me permite usar. Coloquei tudo num táxi e fui ao hospital. Chegando lá, fui questionada sobre que paciente iria visitar e, categoricamente, respondi: “as crianças”. Ao entrar na ala da oncologia pediátrica, a primeira coisa que senti foi um nó na garganta. Como crianças, seres tão inocentes e cheios de vida pela frente, poderiam estar ali lutando por uma sobrevivência que já deveria lhes ser atribuída de graça? Sofrimento é coisa de adulto, oras!
Respirei fundo, segurei as lágrimas e fui cumprimentar cada uma delas com um beijo e um brinquedo. Recebi em troca vários sorrisos, mas houve um que me chamou a atenção de imediato, o de Vinícius. Eu não tinha feito planos de passar a manhã do meu dia de fazer nada no hospital, mas ele me fez ficar quando disse “Tia, você sabe brincar de corrida de carros? Tenho dois, mas ninguém aqui sabe brincar comigo”.
Quem me conhece sabe que não entendo absolutamente nada de coisas de menino e que poucas vezes tenho paciência com esse gosto por monstros, carros, velocidade, disco voador e tudo o mais que só eles entendem. Eu gosto de Barbie, castelos, ursos de pelúcia e todas as coisas fofas. Nada de sangue, guerras e velocidade.
No entanto, antes de dizer que eu não sabia brincar, perguntei como eram as regras da corrida de carros. Assim, enquanto ele me ensinava, eu pensava na possibilidade de aprender ou de sugerir outra coisa. Mas descartei a segunda opção assim que vi os olhinhos dele brilharem enquanto falava do motor, do piloto (que não existia) e da pista ‘molhada’ que poderia capotar meu carro caso não prestasse atenção. Dei risada, mas fui convencida pela imaginação. Aliás, sempre sou convencida pela imaginação.
Acostumada às regras, fiz de tudo para que meu carro não capotasse, mas Vinicius logo disse: “Tia, tem que capotar logo senão não tem graça!” Capotei. Capotei diversas vezes enquanto, no meio da brincadeira, o menino de nove anos me dizia que tinha um “carocinho na cabeça” e que estava esperando o dia em que Papai do Céu viria lhe buscar. Engoli seco. Quem foi a persona non grata que ensinou ao Vinícius que ele teria que esperar Papai do Céu vir lhe buscar? “Sábado Ele buscou Carol”, prosseguiu o menino com voz triste.
Não soube o que fazer diante daquilo e nem sabia se poderia fazer algo, mas quando fui embora disse a ele que Papai do Céu só vem buscar a gente no dia que Ele quer. Enquanto isso, não é para esperar, é para brincar de corrida de carro, disco voador, super-homem e mais um monte de coisa que criança fazporque é assim que a gente espera, brincando. A mãe dele me agradeceu por tudo (eu diria por nada) e fui embora da minha manhã de fazer nada feliz, muito mais feliz que nos dias em que brinco de fazer tudo.
Fazer o tudo de todo dia é fácil, basta seguir a inércia. Difícil mesmo é contracenar com os nossos dias de “fazer nada” porque são eles que nos mostram as coisas mais importantes da vida e exigem a nossa mais pura atenção.
Feriado, crianças, também é dia útil.
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